Dr. Aézio Magalhães - Cardiologista especialista em medicina esportiva

Morte súbita no esporte: é possível prevenir?

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A morte súbita no esporte é um evento raro, porém devastador, que levanta inúmeras questões entre atletas, profissionais de saúde e o público em geral. Ver um indivíduo aparentemente saudável desfalecer durante uma atividade física intensa choca e assusta — especialmente quando se trata de jovens atletas. Mas, afinal, é possível prevenir a morte súbita no esporte?

Este artigo analisa em profundidade as causas, fatores de risco, exames preventivos e medidas que podem reduzir significativamente o risco desse evento trágico. A intenção é esclarecer o tema com base em evidências médicas e recomendações de especialistas, sempre respeitando as normas do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Fatores de risco que aumentam a probabilidade

A detecção de fatores de risco pode salvar vidas. Veja abaixo os principais:

Fatores clínicos e familiares

  • Histórico familiar de morte súbita ou doença cardíaca precoce
  • Desmaios ou tonturas durante exercícios
  • Dor no peito ao se exercitar
  • Diagnóstico prévio de doenças cardíacas
  • Uso de medicamentos que alteram o ritmo cardíaco

Fatores relacionados ao esporte

  • Esportes de alta intensidade (futebol, basquete, ciclismo competitivo)
  • Treinamento excessivo sem acompanhamento médico
  • Desidratação e uso de termogênicos
  • Ambientes muito quentes e úmidos

Exames e avaliação pré-participação: um passo fundamental

A avaliação médica pré-participação esportiva (AMPPE) é o principal método de prevenção da morte súbita no esporte. Ela identifica atletas com maior risco e orienta sobre a prática segura da atividade física.

Exames recomendados:

ExameFinalidade
Anamnese e exame físicoIdentificação de sinais e sintomas de alerta
Eletrocardiograma (ECG)Avaliação de arritmias e sobrecargas cardíacas
EcocardiogramaAvaliação estrutural do coração
Teste ergométricoAnálise do desempenho cardíaco sob esforço
Ressonância magnética cardíacaDiagnóstico mais detalhado em casos específicos
Exames laboratoriaisAvaliação metabólica e inflamatória

Importante: esses exames devem ser solicitados por médico especialista (cardiologista ou médico do esporte), de acordo com a individualidade de cada atleta.

Dr. Aezio Magalhães

Existe prevenção 100% eficaz?

Infelizmente, não há prevenção 100% eficaz, pois algumas doenças cardíacas podem ser silenciosas mesmo após uma avaliação completa. No entanto, os protocolos de rastreamento e monitoramento podem reduzir significativamente os riscos.

Além disso, é essencial que clubes, academias e organizadores de eventos esportivos sigam protocolos de segurança, como:

  • Disponibilidade de desfibriladores externos automáticos (DEA)
  • Equipe treinada em suporte básico de vida
  • Plano de ação de emergência

Casos emblemáticos e o impacto na conscientização

Casos de morte súbita em atletas famosos aumentaram a visibilidade do problema e estimularam a criação de protocolos médicos mais rigorosos.

Exemplos conhecidos:

  1. Marc-Vivien Foé (Camarões, 2003) – colapsou em campo durante uma partida
  2. Miklós Fehér (Hungria, 2004) – faleceu em campo por arritmia
  3. Christian Eriksen (Dinamarca, 2021) – sofreu parada cardíaca, mas foi salvo graças ao atendimento imediato e ao uso do DEA

Esses episódios serviram para reforçar a importância do diagnóstico precoce e da estrutura de suporte nos eventos esportivos.

Prática esportiva segura: recomendações para atletas, pais e treinadores

Se você é atleta, pai de atleta ou treinador, siga estas orientações para minimizar os riscos:

1. Avaliação médica periódica

  • Realize check-ups regulares, mesmo que o atleta esteja assintomático.
  • Atualize o histórico médico com cada mudança na intensidade de treinos.

2. Atenção aos sinais de alerta

  • Não ignore sintomas como falta de ar, palpitações, tontura ou dor torácica.
  • Interrompa a atividade imediatamente diante de qualquer desconforto suspeito.

3. Ambiente seguro e estrutura adequada

  • Exija a presença de equipe médica qualificada em competições e treinos.
  • Verifique se o local possui desfibrilador disponível.

4. Educação e treinamento

Todos os membros da equipe devem saber reconhecer uma parada cardíaca e iniciar manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP).

Conclusão

A morte súbita no esporte é um evento trágico, mas que pode ser amplamente minimizado com prevenção adequada, educação e infraestrutura. A avaliação médica periódica, a presença de equipamentos de emergência e a conscientização sobre sinais de alerta são as ferramentas mais eficazes nesse combate.

A prática esportiva é uma aliada da saúde. Com responsabilidade e informação, é possível manter a segurança dos atletas em todos os níveis de desempenho. Afinal, o objetivo do esporte é promover vida, saúde e bem-estar — nunca o contrário.


FAQ – Perguntas frequentes sobre morte súbita no esporte

Morte súbita no esporte é comum?

Não. É um evento raro, mas com alto impacto. A incidência gira em torno de 1 a 2 casos por 100.000 atletas por ano, dependendo da faixa etária e intensidade do esporte.

Todo atleta precisa fazer exames cardiológicos?

Sim. A avaliação médica pré-participação é essencial, especialmente para atletas de alto rendimento ou aqueles que praticam atividades intensas.

Crianças e adolescentes também podem ter morte súbita?

Sim. Embora menos comum, pode ocorrer, especialmente em casos de doenças cardíacas congênitas não diagnosticadas.

O desfibrilador pode salvar vidas?

Sim. O uso imediato do DEA é uma das medidas mais eficazes para reverter uma parada cardíaca, especialmente quando feito nos primeiros 5 minutos

Atletas que já tiveram COVID-19 precisam de avaliação especial?

Sim. A miocardite viral pós-COVID-19 é uma preocupação real. O retorno ao esporte deve ser feito com liberação médica após exames específicos.