A prática regular de atividade física é reconhecida como um dos pilares mais importantes da saúde cardiovascular. Mas e quando o exercício deixa de ser moderado e passa a ser intenso e prolongado — o que acontece com o coração? Essa é uma das questões mais debatidas na cardiologia do esporte nos últimos anos, especialmente quando o assunto é a fibrilação atrial em atletas.
A fibrilação atrial (FA) é a arritmia cardíaca mais comum na prática clínica, caracterizada pela desorganização completa da atividade elétrica dos átrios e pela consequente perda da eficiência na contração cardíaca. Mais de um terço das internações em hospitais de cardiologia está relacionado ao desenvolvimento de FA e suas complicações. Trata-se de uma condição que eleva significativamente o risco de acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e redução da qualidade de vida.
O que surpreende muitos pacientes e até profissionais de saúde é que atletas — pessoas com corações aparentemente saudáveis e bem condicionados — também podem desenvolver essa arritmia. E, ao contrário do que se poderia imaginar, o alto volume de treinamento pode ser, em determinadas situações, um fator de risco. Existe uma relação complexa entre exercício e FA: enquanto o exercício moderado reduz o risco da arritmia, o exercício intenso e extenuante demonstrou aumentar a carga de FA.

O paradoxo do coração de atleta
O coração de quem treina intensamente se adapta de formas estruturais, funcionais e elétricas ao longo do tempo. Atletas de endurance de meia idade parecem ter cinco vezes mais risco de fibrilação atrial do que a população em geral. Esse dado, que à primeira vista pode parecer alarmante, precisa ser compreendido em contexto.
Alguns pesquisadores chegaram a propor que o coração de atleta seja visto como um coração potencialmente pró-arrítmico — não em sentido alarmista, mas como convite a uma avaliação clínica mais criteriosa. A comparação feita por Heidbuchel em 2018 é esclarecedora: assim como o tênis pode gerar o “cotovelo de tenista”, o coração do atleta apresenta características pró-arrítmicas — e em nenhum dos dois casos se deve contraindicar a prática, mas submetê-la a uma avaliação mais cuidadosa.
O que não se deve concluir dessa observação é que o exercício é prejudicial ao coração. A evidência científica é clara ao demonstrar que o exercício moderado e regular protege contra a FA. Comparado ao sedentarismo, a atividade física em níveis moderados reduz o risco de fibrilação atrial, e estudos já documentaram que mesmo um curto período de treinamento de endurance pode ser suficiente para essa redução.
O que ocorre é que, a partir de um determinado limiar de intensidade e volume de treino — especialmente nos chamados esportes de endurance (maratona, ciclismo de longa distância, triathlon, natação de longa distância) — o risco começa a aumentar de forma gradual. De forma paradoxal, já está bem descrito na literatura uma maior incidência de FA em atletas de endurance previamente saudáveis, sugerindo que a alta intensidade nesse tipo de estímulo pode ser fator de risco para o desenvolvimento de FA.
Por que o exercício intenso pode aumentar o risco de fibrilação atrial?
Entender os mecanismos que levam à FA em atletas é fundamental para orientar pacientes e tomar decisões clínicas baseadas em evidências. A ciência aponta para uma combinação de fatores:
Remodelamento estrutural do átrio esquerdo
Décadas de treinamento intenso promovem alterações na arquitetura do coração. O remodelamento cardíaco é o primeiro mecanismo proposto para a FA em atletas: mudanças estruturais no átrio esquerdo — como dilatação e estiramento das veias pulmonares —, inflamação cardíaca, fibrose e aumento do tônus vagal são responsáveis pelo desenvolvimento de FA em atletas de endurance.
Esse remodelamento cria um substrato elétrico desfavorável: tecido cicatricial (fibrose) conduz os impulsos elétricos de forma heterogênea, favorecendo o surgimento e a manutenção da arritmia.
Aumento do tônus vagal e bradicardia
Atletas de alto rendimento costumam apresentar frequência cardíaca de repouso muito baixa — sinal de adaptação do sistema nervoso autônomo. Tanto o aumento do tônus vagal quanto a redução da frequência cardíaca intrínseca estão presentes em atletas e compõem os mecanismos subjacentes à FA induzida pelo exercício. A maioria dos episódios de FA em atletas ocorre em contextos de predomínio do sistema parassimpático — como durante o sono ou em períodos de recuperação após esforço.
Inflamação sistêmica e fibrose atrial
Cada sessão de treino de alta intensidade desencadeia uma resposta inflamatória local e sistêmica. Evidências histológicas demonstraram fibrose atrial induzida por exercício em modelos experimentais, e biomarcadores relacionados à fibrose estão aumentados em atletas. Ao longo dos anos, esse processo inflamatório repetitivo pode contribuir para a formação de um substrato pró-arrítmico no tecido atrial.
Perfil de risco: quem está mais vulnerável?
A fibrilação atrial em atletas tem maior incidência em indivíduos do sexo masculino, mais velhos, que realizam treinos de alta intensidade, tendo como potenciais indutores o remodelamento cardíaco, a inflamação e a fibrose.
A tabela abaixo resume os principais fatores de risco associados ao desenvolvimento de FA em atletas:
| Fator de risco | Característica |
| Sexo | Predominância masculina |
| Idade | Maior risco acima dos 40–50 anos |
| Modalidade | Esportes de endurance (maratona, ciclismo, triathlon) |
| Tempo de prática | Treinamento intenso por mais de 10 anos |
| Frequência cardíaca | FC de repouso inferior a 100 bpm (tônus vagal elevado) |
| Remodelamento atrial | Dilatação do átrio esquerdo e fibrose |

Quando o esporte protege o coração
Antes de qualquer conclusão precipitada, é fundamental reforçar: o exercício físico regular é um poderoso aliado da saúde cardiovascular para a grande maioria das pessoas. A relação entre atividade física e FA segue o que os especialistas chamam de curva em J — os benefícios são claros no exercício moderado, e o risco aumenta apenas nas intensidades extremas.
Pessoas que praticam de 2,5 a 5 horas de exercícios moderados a vigorosos por semana têm um risco 60% menor de desenvolver fibrilação atrial. Esses dados reforçam as recomendações das principais diretrizes internacionais.
A recomendação geral para a população é realizar pelo menos 150 minutos de atividade física moderada por semana — como caminhada rápida / corrida leve, natação ou ciclismo leve —, conforme as diretrizes da Organização Mundial da Saúde.
O exercício moderado age sobre o coração de diversas formas benéficas: reduz a pressão arterial, melhora o perfil lipídico, auxilia no controle do peso corporal, diminui a inflamação sistêmica e melhora a sensibilidade à insulina — todos fatores que, quando não controlados, aumentam o risco de FA.

Como reconhecer os sintomas e quando buscar avaliação médica
A fibrilação atrial pode se manifestar de formas muito variadas, inclusive de modo silencioso. Em geral, a FA é assintomática, mas muitos pacientes apresentam palpitações, desconforto torácico ou sintomas de insuficiência cardíaca — como fraqueza, tontura e dispneia —, especialmente quando a frequência cardíaca está muito elevada.
Em atletas, os sintomas mais frequentemente relatados incluem:
- Palpitações irregulares durante ou após o treino
- Sensação de “coração desorganizado” ou “pulando batimentos”
- Queda inesperada no desempenho esportivo
- Cansaço desproporcional ao esforço realizado
- Tontura ou falta de ar durante o exercício
É importante destacar que palpitações em atletas nem sempre indicam doença. Muitas adaptações normais do coração — como bradicardia sinusal ou extrassístoles isoladas — são benignas e não requerem intervenção. Por isso, a avaliação médica especializada é fundamental para diferenciar o que é fisiológico do que é patológico.
Qualquer atleta que experiencie sintomas cardíacos durante ou após exercícios deve buscar avaliação cardiológica especializada. O eletrocardiograma de repouso é o exame inicial, mas deve ser interpretado por profissional familiarizado com as adaptações do coração de atleta. O teste ergométrico avalia como o coração responde ao exercício e pode detectar arritmias induzidas pelo esforço. O ecocardiograma distingue adaptações normais de alterações patológicas na estrutura cardíaca. O Holter de 24 horas pode capturar arritmias que ocorrem esporadicamente ou durante diferentes atividades.
Diagnóstico e tratamento da fibrilação atrial em atletas
O diagnóstico da FA é confirmado pelo eletrocardiograma (ECG), que demonstra a ausência de ondas P organizadas e a irregularidade dos intervalos entre os batimentos. Episódios espaçados de palpitações requerem monitoramento do ritmo cardíaco por um ou mais dias, por meio do Holter de ECG.
Uma vez confirmado o diagnóstico, o manejo em atletas envolve considerações específicas, distintas da abordagem na população geral. Uma das primeiras medidas costuma ser a redução temporária ou pausa no treinamento, que permite avaliar se a arritmia persiste na ausência do estímulo de alto volume. Essa conduta também tem valor diagnóstico, já que o destreinamento pode reverter parte do remodelamento atrial.
Em relação às opções terapêuticas, a ablação por cateter tem papel crescente nessa população. É comum a indicação de ablação, procedimento no qual um cateter é introduzido pela artéria do fêmur até o coração para aplicação de radioenergia no local, com o objetivo de modificar os caminhos elétricos que predispõem a novas arritmias. Em atletas, esse procedimento costuma ser preferido em relação ao uso crônico de medicamentos antiarrítmicos, que podem interferir no desempenho esportivo e são frequentemente mal tolerados por essa população.
A nova Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial (SBC 2025) aborda situações específicas como a do paciente atleta, reconhecendo que esse grupo apresenta particularidades clínicas que merecem atenção individualizada.
A decisão sobre continuidade da prática esportiva após o diagnóstico de FA deve ser sempre individualizada, levando em consideração o tipo de arritmia, os sintomas, os riscos associados e os objetivos do paciente.

Conclusão
A relação entre esporte e fibrilação atrial é, de fato, paradoxal. O exercício moderado e regular é um dos maiores aliados da saúde cardiovascular, reduzindo significativamente o risco de FA na população geral. No entanto, décadas de treinamento intenso — especialmente em modalidades de endurance — podem predispor atletas veteranos a essa arritmia, por mecanismos que envolvem remodelamento atrial, inflamação e alterações do sistema nervoso autônomo.
Isso não significa que o esporte seja prejudicial. Significa que atletas de alto rendimento merecem acompanhamento cardiológico especializado, com avaliação periódica e interpretação criteriosa dos exames — por profissionais que conhecem as adaptações fisiológicas do coração do atleta.
Se você pratica esportes de endurance com regularidade e apresenta palpitações, queda de desempenho ou qualquer sintoma cardíaco atípico, consulte um cardiologista. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado permitem, na grande maioria dos casos, a manutenção de uma vida esportiva ativa e segura.
FAQ — Perguntas frequentes sobre fibrilação atrial em atletas
Atletas têm mais risco de fibrilação atrial do que pessoas sedentárias?
Atletas de endurance de meia-idade, especialmente do sexo masculino com décadas de treinamento intenso, apresentam risco aumentado de FA em comparação à população geral. Já pessoas que praticam exercício moderado têm risco menor do que os sedentários. O risco depende diretamente da intensidade e volume do treinamento ao longo dos anos.
Quais esportes estão mais associados ao aumento do risco de FA?
Os esportes de endurance são os que apresentam maior associação: maratona, ciclismo de longa distância, triathlon, remo e natação de longa distância. Modalidades que envolvem volume elevado e esforço prolongado são os principais fatores de risco.
Quem tem fibrilação atrial pode continuar praticando esportes?
Depende do caso. Muitos atletas com FA podem retomar a prática esportiva após tratamento adequado, como a ablação por cateter. A decisão é sempre individualizada, baseada na avaliação do cardiologista responsável, considerando o tipo de arritmia, os sintomas e o risco de complicações.
Quais exames são indicados para atletas com suspeita de fibrilação atrial?
Os principais exames incluem eletrocardiograma (ECG) de repouso, Holter de 24 horas, ecocardiograma e teste ergométrico. A interpretação deve ser feita por cardiologista familiarizado com as características do coração de atleta.
O exercício moderado pode proteger contra a fibrilação atrial?
Sim. Estudos mostram que pessoas que seguem as recomendações internacionais — ao menos 150 minutos de atividade física moderada por semana — têm risco significativamente menor de desenvolver FA em comparação aos sedentários. O exercício regular e moderado permanece como um dos melhores recursos para a saúde cardiovascular.





