Quando o assunto é infarto, a maioria das pessoas imagina uma cena bastante específica: um homem de meia-idade que subitamente sente uma dor intensa no peito, aperta o braço esquerdo e cai ao chão. Essa imagem, amplamente difundida na cultura popular, reflete uma realidade parcial. Ela descreve bem a experiência masculina — mas ignora quase completamente o que acontece com as mulheres.
Os sintomas de infarto em mulheres costumam ser muito diferentes. Cansaço extremo, náusea, dor nas costas, sensação de queimação no estômago e falta de ar podem ser os únicos sinais de que o coração está em perigo. Como esses sintomas se assemelham a outros problemas — gastrite, ansiedade, crise de vesícula — muitas mulheres demoram a buscar atendimento. E esse atraso pode custar vidas.
Um posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), publicado em 2025, afirma que as doenças cardiometabólicas em mulheres são subdiagnosticadas e subtratadas. Doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em mulheres no Brasil, superando todos os tipos de câncer, conforme o Ministério da Saúde. O infarto, especificamente, mata oito vezes mais do que o câncer de mama, segundo a SBC.
Reconhecer as diferenças entre os sintomas de infarto em homens e mulheres não é apenas uma questão de curiosidade médica — é uma questão de sobrevivência.

O que é o infarto e como ele acontece
O infarto agudo do miocárdio (IAM) ocorre quando o fluxo de sangue para uma parte do músculo cardíaco é interrompido ou gravemente reduzido, causando morte das células cardíacas por falta de oxigênio. O bloqueio é geralmente causado pela aterosclerose — acúmulo de gordura e colesterol nas paredes das artérias coronárias — que pode se romper e formar um trombo. Quanto mais rápido o tratamento é iniciado, maior a chance de preservar o músculo cardíaco e reduzir complicações como insuficiência cardíaca, arritmias e morte súbita.
O infarto agudo do miocárdio está entre as principais causas de morte no Brasil, com cerca de 400 mil óbitos anuais por doenças cardiovasculares, incluindo aproximadamente 100 mil por infarto, segundo o Cardiômetro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
O que poucos sabem é que a forma como essa emergência se manifesta varia significativamente entre os sexos. Essas diferenças têm origem biológica, hormonal e vascular — e impactam diretamente a rapidez do diagnóstico e as chances de sobrevivência.
Sintomas clássicos do infarto: o que os homens costumam sentir
Em homens, o infarto tende a seguir um padrão mais característico e amplamente reconhecido, o que facilita — embora não garanta — o diagnóstico. O sintoma mais característico é uma dor ou desconforto no centro ou lado esquerdo do peito, frequentemente descrita não como uma dor aguda, mas como uma sensação de pressão, aperto, peso ou queimação. Essa sensação pode durar vários minutos ou ir e vir.
Além da dor torácica, outros sinais frequentes em homens incluem:
- Irradiação da dor para o braço esquerdo, ombro, mandíbula ou costas
- Falta de ar (dispneia)
- Sudorese fria e intensa
- Tontura ou sensação de desmaio
- Náusea e vômito (menos frequente do que nas mulheres)
- Palidez ou sensação de fraqueza repentina
A dor torácica raramente fica isolada. De acordo com o Ministério da Saúde, essa irradiação pode afetar braço esquerdo, costas, ombros, pescoço, mandíbula e a parte superior do abdômen.
Um dado relevante: o início dos sintomas em homens costuma ser mais abrupto e de maior intensidade, o que leva a uma busca por atendimento mais rápida. Esse padrão de apresentação mais “clássico” também reflete o fato de que a maioria dos estudos clínicos sobre infarto foram realizados historicamente com populações predominantemente masculinas — o que moldou durante décadas a percepção pública e médica sobre a doença.

Sintomas atípicos do infarto: o que as mulheres costumam sentir
Aqui reside o ponto mais crítico — e mais subestimado — do tema. As mulheres podem apresentar sintomas atípicos, como falta de ar, cansaço extremo, dor abdominal, náuseas, tontura ou dor no pescoço e nas costas. Muitas vezes, não relatam dor torácica clássica. Essa diferença faz com que o diagnóstico em mulheres seja atrasado, aumentando o risco de complicações.
Dor no estômago, queimação, náusea, vômito, cansaço extremo, sudorese, dor nas costas e dor no pescoço estão entre os sinais frequentemente confundidos com doenças gástricas ou crises de ansiedade.
Segundo a diretora de Saúde da Mulher da SBC, a isquemia da coronária direita provoca exatamente esses sintomas gástricos — o que pode levar ao diagnóstico equivocado e à alta hospitalar sem o tratamento adequado.
Os principais sintomas de infarto que as mulheres costumam apresentar são:
- Cansaço extremo e desproporcional — sem causa aparente, persistindo por dias ou semanas antes do evento
- Falta de ar, mesmo sem dor no peito
- Dor ou desconforto no estômago, queimação ou sensação semelhante à gastrite
- Náusea e vômito
- Dor nas costas, entre as omoplatas
- Dor no pescoço, mandíbula ou nos ombros
- Tontura ou sensação de desequilíbrio
- Ansiedade inexplicável ou sensação de que algo está errado
A dor no peito pode ocorrer, mas nem sempre está presente — e quando aparece, costuma ser descrita de forma mais difusa e menos intensa do que nos homens.
A tabela abaixo resume as principais diferenças na apresentação dos sintomas entre os sexos:
| Sintoma | Homens | Mulheres |
| Dor intensa no peito | Muito frequente | Pode estar ausente |
| Irradiação para braço esquerdo | Frequente | Menos frequente |
| Cansaço extremo | Menos típico | Muito frequente |
| Náusea e vômito | Ocorre | Mais frequente |
| Dor nas costas ou pescoço | Pode ocorrer | Mais frequente |
| Falta de ar isolada | Menos comum | Comum |
| Dor abdominal / “gastrite” | Incomum | Frequente |
| Sudorese fria | Frequente | Frequente |
Por que os sintomas do infarto são diferentes entre homens e mulheres
A diferença na apresentação clínica tem raízes biológicas bem documentadas.
O papel do estrogênio
Durante a fase fértil, as mulheres contam com uma proteção cardiovascular importante oferecida pelo estrogênio. Durante a fase reprodutiva, as mulheres apresentam proteção cardiovascular atribuída ao estrogênio, que atua na preservação da função endotelial, regulação do perfil lipídico e redução da inflamação. Com a chegada da menopausa, ocorre queda abrupta dos níveis hormonais, perda da proteção estrogênica e elevação significativa do risco cardiovascular, que se torna equiparável ao dos homens.
Isso explica por que as mulheres costumam ter seu primeiro infarto em média dez anos depois dos homens. O risco aumenta de forma significativa após a menopausa, que no Brasil ocorre em média por volta dos 48 anos.
Diferenças na anatomia coronária
As coronárias femininas tendem a ser mais estreitas e o padrão de acometimento arterial pode ser diferente. A prevalência de infarto do miocárdio na ausência de obstrução arterial coronária é maior nas mulheres, com mortalidade semelhante à da doença isquêmica coronariana obstrutiva. Esse padrão, chamado de MINOCA (Myocardial Infarction with Non-Obstructive Coronary Arteries), é mais comum no sexo feminino e pode ser especialmente difícil de diagnosticar pelos métodos convencionais.
Fatores de risco com impacto maior no sexo feminino
Fatores como diabetes, hipertensão e obesidade têm impacto ainda mais significativo no risco cardiovascular feminino. Mulheres com diabetes, por exemplo, podem ter até três vezes mais risco de infarto em comparação com homens diabéticos.
Além dos fatores de risco tradicionais, as mulheres têm fatores específicos que aumentam seu risco cardiovascular:
- Pré-eclâmpsia ou hipertensão gestacional
- Diabetes gestacional
- Menopausa precoce (antes dos 40 anos)
- Síndrome dos ovários policísticos (SOP)
- Uso de anticoncepcionais combinados, especialmente em fumantes
Por que o infarto mata mais mulheres: o problema do subdiagnóstico
Dados do Sistema Único de Saúde mostram que, nos últimos 15 anos, a ocorrência de infarto em pessoas jovens mais que dobrou, e o quadro é ainda mais grave nas mulheres, que enfrentam um risco de óbito cerca de 50% maior do que os homens quando sofrem um infarto.
Esse dado alarmante tem múltiplas causas. Uma das principais é o subdiagnóstico: como os sintomas femininos são atípicos, tanto as próprias mulheres quanto os profissionais de saúde tendem a atribuí-los a condições menos graves.
Um relatório publicado pela American Heart Association (AHA) em 2022 alerta que o subdiagnóstico de problemas cardíacos em mulheres pode ser causado pela presença de sintomas mais sutis, que acabam passando despercebidos pelos médicos. Ao avaliar suas pacientes, os médicos podem considerar que os sintomas estão relacionados a outras condições menos graves — como crises de ansiedade — e acabam não oferecendo o atendimento e o tratamento necessários.
O problema vai além do diagnóstico. Menos de 50% das mulheres que sofrem infarto são submetidas a tratamento medicamentoso adequado.
As mulheres apresentam taxas significativamente menores de angioplastia primária e significativamente maiores de mortalidade hospitalar quando comparadas aos homens com o mesmo diagnóstico. Esse cenário reflete não apenas as diferenças biológicas, mas também lacunas históricas na pesquisa cardiovascular e na abordagem clínica das mulheres.

O que fazer diante de uma suspeita de infarto
Diante de qualquer sintoma que possa indicar um infarto — especialmente em pessoas com fatores de risco — a conduta deve ser imediata. Não espere os sintomas piorarem e não tente se automedicar.
As orientações do Ministério da Saúde são claras:
- Ligue imediatamente para o SAMU (192) e informe a suspeita de infarto
- Mantenha a pessoa em repouso, sentada ou deitada, em posição confortável
- Evite que o paciente faça esforço ou se movimente desnecessariamente
- Não dirija por conta própria até o hospital
- Aguarde o socorro especializado — ele pode iniciar o tratamento no local e salvar tecido cardíaco
Cada minuto conta. O músculo cardíaco privado de oxigênio morre progressivamente, e quanto maior o tempo entre o início dos sintomas e o tratamento, maior o dano permanente ao coração.
Prevenção: como reduzir o risco para homens e mulheres
A boa notícia é que grande parte dos fatores de risco para infarto é controlável. A prevenção inclui a prática regular de atividades físicas, alimentação adequada, não consumo de álcool e qualquer tipo de tabagismo, de acordo com o Ministério da Saúde.
Os principais fatores de risco modificáveis que devem ser monitorados são:
- Hipertensão arterial — controle regular da pressão
- Diabetes — especialmente crítico nas mulheres
- Colesterol elevado — dislipidemia aterogênica
- Tabagismo — um dos fatores de risco mais impactantes para ambos os sexos
- Sedentarismo — o principal fator de risco comportamental nas mulheres brasileiras, segundo dados do IBGE
- Obesidade, especialmente a gordura abdominal
- Estresse crônico
Os principais fatores de risco para mulheres com 55 anos ou menos incluem pressão alta, diabetes, depressão e baixa renda familiar. Já para os homens, os sinais de alerta predominantes foram tabagismo atual e histórico familiar.
A recomendação é clara: pessoas com um ou mais fatores de risco devem realizar acompanhamento cardiológico regular, com avaliação periódica — e as mulheres, especialmente após os 48 anos ou no início da menopausa, merecem atenção especial nesse aspecto.
Conclusão
O infarto é uma emergência que não escolhe sexo, mas que se manifesta de formas distintas em homens e mulheres. Enquanto os sintomas masculinos costumam seguir um padrão mais reconhecível, os sinais femininos são frequentemente sutis, atípicos e facilmente confundidos com outras condições — o que retarda o diagnóstico e piora o prognóstico.
Conhecer essas diferenças pode salvar vidas: tanto para que a própria pessoa reconheça os sinais de alerta e busque ajuda rapidamente, quanto para que profissionais de saúde ampliem sua atenção ao avaliar pacientes do sexo feminino. Se você tem fatores de risco cardiovascular, independentemente do sexo, consulte um cardiologista e mantenha o acompanhamento em dia.
FAQ — Perguntas frequentes sobre sintomas de infarto em homens e mulheres
As mulheres têm infarto com menos frequência do que os homens?
Historicamente, o infarto era mais comum em homens — mas esse cenário mudou. Atualmente, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em mulheres no Brasil, e a mortalidade feminina após um infarto é maior do que a masculina. O subdiagnóstico é um dos fatores que contribuem para esse quadro.
Por que os sintomas de infarto são diferentes entre homens e mulheres?
As diferenças têm origem biológica: a anatomia coronária feminina, os efeitos do estrogênio sobre os vasos sanguíneos, a forma como o sistema nervoso autônomo responde à isquemia e o padrão de acometimento arterial são distintos entre os sexos. Por isso, os sintomas podem ser mais difusos e atípicos nas mulheres.
Uma mulher pode ter infarto sem sentir dor no peito?
Sim. Estudos indicam que uma parcela significativa das mulheres que infartam não apresenta dor torácica como sintoma principal. Cansaço extremo, falta de ar, náusea e dor nas costas podem ser os únicos sinais presentes.
O que fazer ao sentir sintomas que podem ser de infarto?
Ligue imediatamente para o SAMU (192), informe a suspeita de infarto e aguarde o atendimento especializado. Não dirija por conta própria, não se automedique e evite esforços. O atendimento rápido é determinante para o prognóstico.





