Você está no meio de uma corrida, de uma aula de musculação ou de um treino de ciclismo e de repente sente o coração disparar, dar uma “falhinha” ou bater de forma estranha. A sensação é desconfortável e surge imediatamente uma dúvida: isso é normal ou precisa de atenção médica?
A palpitação durante o exercício é uma das queixas mais frequentes entre praticantes de atividade física, sejam atletas amadores ou profissionais. Na maioria dos casos, essa sensação é benigna e esperada pelo esforço. Porém, em determinadas situações, ela pode ser o primeiro sinal de uma arritmia cardíaca que exige avaliação especializada.
Neste artigo, elaborado com base nas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e Esporte (SBMEE), você vai entender o que acontece com o seu coração durante o exercício, quais os sinais de alerta e o que fazer quando a palpitação preocupa.

O que é palpitação e por que ela acontece durante o exercício
A palpitação e a percepção consciente dos próprios batimentos cardíacos. Em situações normais, o coração bate sem que a pessoa perceba. Quando isso muda, seja porque o coração acelerou, desacelerou ou perdeu o ritmo, a pessoa passa a notar o próprio coração. Essa sensação pode ser descrita de formas diferentes: batedeira, coração pulando, falha no peito, coração na garganta ou batimento forte e irregular.
Durante a atividade física, os músculos demandam mais oxigênio. Para atender a essa demanda, o coração precisa bombear sangue com maior frequência e força. Esse processo naturalmente acelera os batimentos cardíacos, o que é completamente fisiológico.
De acordo com o Grupo de Estudos de Cardiologia do Esporte (GCESP) da Sociedade Brasileira de Cardiologia, arritmia e qualquer irregularidade da pulsação: falhas chamadas de extrassístoles, diminuição dos batimentos abaixo de 50 batimentos por minuto (bradicardia) ou aceleração acima de 100 batimentos por minuto (taquicardia). O GECEP ressalta que a arritmia pode ser benigna ou não, e que uma análise cardiológica criteriosa com exames específicos é indispensável para essa classificação.
O problema surge quando a aceleração vai além do esperado, ocorre de forma irregular ou aparece acompanhada de outros sintomas.
Quando a palpitação durante o exercício é considerada normal
O Fenômeno das palpitações é comum e natural em situações de estresse e após exercícios físicos. No entanto, existem situações em que o fenômeno não é natural e pode indicar um problema de saúde.
A palpitação é considerada dentro do esperado quando:
- Surge apenas durante o esforço físico intenso e cessa rapidamente após a pausa
- Nao e acompanhada de tontura, falta de ar intensa, dor no peito ou desmaio
- A pessoa não tem histórico de doença cardíaca diagnosticada
- Ocorre de forma isolada e eventual
Outros fatores que podem desencadear palpitações benignas incluem:
- Consumo de cafeína, energéticos e estimulantes
- Estresse, ansiedade e emoções intensas
- Desidratação ou desequilíbrio de sódio durante o exercício prolongado
- Uso de anabolizantes e suplementos não orientados pelo médico
O GECEP da SBC alerta especificamente sobre o uso de anabolizantes e estimulantes, destacando que arritmias desencadeadas por essas substâncias, incluindo lesão direta do músculo cardíaco (miocárdio), foram encontradas em esportistas que as utilizaram mesmo em pequenos ciclos.
Arritmias em esportistas: o que os dados mostram
Com base em pesquisas realizadas no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia de São Paulo e no HCor (Hospital do Coração de São Paulo), o GECEP da SBC identificou que 15% dos esportistas e atletas avaliados apresentaram arritmias nos eletrocardiogramas iniciais, contra 10% da população geral. Esse percentual tende a aumentar conforme a intensidade da prática esportiva.
Quando a palpitação durante o exercício é sinal de alerta
Mesmo para pessoas jovens e atletas, palpitações que acompanham a atividade física devem ser investigadas por um cardiologista, especialmente quando acompanhadas de outros sintomas. Isso porque, em alguns casos, a palpitação durante o esforço pode estar relacionada à redução da circulação sanguínea para o músculo cardíaco, o que representa um sinal de alerta importante.
A Diretriz em Cardiologia do Esporte e do Exercício da SBC e da SBMEE (2019) estabelece que a presença de palpitações relacionada ao exercício é indicada para realização de Teste Ergométrico (TErg), especialmente nos seguintes contextos:
- Surgimento de arritmias previamente inexistentes durante o esforço
- Pré-síncope ou síncope relacionadas ao exercício
- Elevação da pressão arterial em repouso com ou sem comprometimento de órgão-alvo
Sintomas de alerta: para o exercício e procure um médico
Segundo a Diretriz SBC/SBMEE 2019, interrompa a atividade física e busque avaliação médica se a palpitação vier acompanhada de:
- Dor ou desconforto no peito (dor precordial)
- Tontura ou sensação de desmaio (lipotimia)
- Falta de ar desproporcional ao esforço (dispneia)
- Perda de consciência (síncope)
- Cansaço extremo sem motivo aparente (astenia)
- Palpitação que persiste após o término do exercício
- Palpitação em repouso, principalmente com início súbito
Principais causas de palpitação no exercício que exigem investigação
Extrassístole
A extrassístole é um batimento cardíaco extra e precoce, descrito como uma “falha no peito” ou um “pulo” seguido de um batimento mais forte. E uma das formas mais comuns de arritmia.
Segundo o GECEP da SBC, as extrassístoles podem ser encontradas tanto em pessoas sadias quanto em portadores de problemas cardíacos. Quando o número de extrassístoles aumenta durante o esforço físico, isso pode sinalizar uma condição que requer investigação cardiológica mais aprofundada.
Fibrilação ventricular súbita
O GECEP da SBC classifica a fibrilação ventricular súbita como uma arritmia de alta gravidade, sinônimo de parada cardíaca. Ela representa uma total desregulação dos batimentos cardíacos, tornando as contrações ineficientes para bombear sangue. Sem tratamento imediato com massagem cardíaca e desfibrilação elétrica, pode evoluir para morte súbita.
Cardiomiopatia hipertrófica
A Diretriz SBC/SBMEE 2019 aborda as doenças estruturais do coração como causas importantes de eventos cardíacos graves durante o esforço. A cardiomiopatia hipertrófica, condição genética em que o músculo cardíaco é mais espesso que o normal, é uma das principais causas de arritmias ventriculares graves em jovens atletas. Durante exercícios intensos, esse espessamento pode desencadear taquicardia ventricular ou fibrilação ventricular.
Canalopatias e outras doenças genéticas
O GECEP da SBC também destaca que outras doenças genéticas, como as canalopatias cardíacas (e Síndrome de Brugada, Síndrome do QT longo) e alterações no posicionamento das artérias coronárias, podem provocar arritmias graves e morte súbita especialmente durante o exercício físico. Muitas dessas condições são silenciosas e só se manifestam durante o esforço.
Exames para investigar a palpitação durante o exercício
A Diretriz SBC/SBMEE 2019 define protocolos de avaliação de acordo com o perfil do praticante:
| Perfil | Exames recomendados |
| Esportistas até 35 anos, sem comorbidades | Consulta médica e Eletrocardiograma (ECG) |
| Esportistas acima de 35 anos | Consulta, ECG, exames laboratoriais e Teste Ergométrico |
| Atletas de elite | Avaliação completa: história, exame físico, laboratoriais, ecocardiograma e teste ergométrico ou cardiopulmonar |
| Qualquer pessoa com palpitações no exercício | Teste Ergométrico indicado (Grau de recomendação I, nível de evidência A para atividade de alta intensidade) |
Os principais exames utilizados na investigação de palpitações são:
- Eletrocardiograma (ECG): avalia o ritmo e a atividade elétrica do coração em repouso
- Holter 24 horas: monitora o ritmo cardíaco continuamente durante 24 horas na rotina do paciente
- Teste Ergométrico (TErg): avalia o comportamento cardíaco durante esforço físico controlado, sendo o exame mais indicado para palpitações que ocorrem durante o exercício
- Ecocardiograma: exame de imagem que identifica alterações estruturais do coração
- Monitor de eventos: registra o ECG no momento exato da palpitação, por período prolongado

O exercício físico e o coração: benefícios com responsabilidade
A Diretriz SBC/SBMEE 2019 é clara: o exercício físico é amplamente reconhecido pelos seus benefícios cardiovasculares. Uma baixa capacidade funcional está associada a pior prognóstico em pacientes com doenças cardíacas, e diferentes estudos demonstram associação inversa entre a capacidade de esforço e a mortalidade.
O GECEP da SBC complementa: os tratamentos atuais das arritmias são muito eficientes e, na maioria dos casos, permitem ao paciente manter uma vida fisicamente ativa com acompanhamento adequado. Dispositivos como marcapassos e desfibriladores automáticos internos (CDI) salvam vidas e podem, caso a caso, permitir a prática de exercícios.
Recomendações para praticantes de atividade física
Com base na Diretriz SBC/SBMEE 2019 e nas orientações do GCESP da SBC:
- Realize uma avaliação cardiológica antes de iniciar ou intensificar qualquer programa de treinamento
- Informe ao médico todos os sintomas, mesmo os que parecem leves ou passageiros
- Não ignore palpitações recorrentes ou acompanhadas de outros sinais
- Evite o uso de anabolizantes, energéticos e estimulantes sem orientação médica
- Mantenha-se hidratado, especialmente em exercícios prolongados ou em dias quentes
- Respeite os sinais do seu corpo: interrompa o exercício se sentir mal-estar
Conclusão
A palpitação durante o exercício é uma experiência comum e, na maioria dos casos, benigna. O coração acelera naturalmente para atender a demanda muscular durante o esforço físico, e isso faz parte do funcionamento normal do organismo.
No entanto, quando a palpitação é acompanhada de dor no peito, tontura, falta de ar desproporcional, desmaio ou cansaço extremo, ela precisa ser investigada por um médico cardiologista. O mesmo vale para palpitações que persistem fora do exercício, que surgem de forma súbita ou que ocorrem em pessoas com histórico familiar de doença cardíaca ou morte súbita.
A avaliação cardiológica completa, com exames como eletrocardiograma, teste ergométrico e ecocardiograma, é o caminho mais seguro para entender a origem das palpitações e praticar atividade física com tranquilidade e segurança.
Cuide do seu coração com a mesma dedicação com que cuida do seu treino.
FAQ – Perguntas frequentes sobre palpitação durante o exercício
Sentir o coração acelerar durante o exercício é normal?
Sim. O aumento da frequência cardíaca durante o esforço físico é uma resposta fisiológica normal do organismo para atender a maior demanda de oxigênio pelos músculos. O problema ocorre quando essa aceleração é desproporcional, irregular ou acompanhada de outros sintomas como dor no peito, tontura ou desmaio.
Extrassístole durante o exercício é perigosa?
Depende. Segundo o GECEP da Sociedade Brasileira de Cardiologia, extrassístoles podem ocorrer em pessoas sem doença cardíaca e ser benignas. Porém, quando o número de extrassístoles aumenta com o esforço físico ou quando vem acompanhada de outros sintomas, é necessária avaliação por um médico cardiologista para afastar causas mais graves.
Quais sintomas junto com a palpitação exigem atendimento imediato?
De acordo com a Diretriz SBC/SBMEE 2019 e com informações do InCor-USP, deve-se buscar atendimento médico urgente se a palpitação vier acompanhada de dor ou pressão no peito, desmaio, tontura intensa, falta de ar grave ou cansaço extremo desproporcional ao esforço realizado.
Qual exame detecta a palpitação durante o exercício?
O Teste Ergométrico (TE) é o exame mais indicado para investigar palpitações que ocorrem especificamente durante o esforço físico, pois reproduzem as condições de treino em ambiente controlado. O holter 24 horas também é utilizado para registrar o ritmo cardíaco ao longo do dia.
Posso continuar treinando se tenho palpitações?
Isso depende da causa e da avaliação médica individual. A liberação para a prática de exercícios deve ser feita pelo médico cardiologista com base nos exames e no histórico clínico do paciente. Em muitos casos de arritmias benignas, o exercício moderado é permitido e até benéfico. Em casos de arritmias associadas a doenças estruturais do coração, pode ser contraindicado.





