Decidir correr uma maratona é um compromisso sério com o próprio corpo. São 42,195 km que exigem meses de preparação, disciplina intensa e uma demanda fisiológica extraordinária sobre o sistema cardiovascular. E é exatamente por isso que o ponto de partida de qualquer plano de treinamento para uma maratona não deveria ser a escolha do tênis ou do aplicativo de corrida — deveria ser a avaliação cardiológica.
A avaliação pré-participação esportiva (APP) é recomendada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e pela Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) para todos os indivíduos antes de iniciar, retomar ou intensificar a prática de atividades físicas. Para quem pretende correr uma maratona — uma das modalidades de endurance de maior demanda cardiovascular —, essa avaliação não é opcional: é parte indispensável do preparo.
Os episódios de morte súbita durante corridas, embora recebam grande repercussão quando acontecem, são raros. Mas justamente porque são raros e dramáticos, o impacto de um bom rastreamento preventivo é imenso. A principal função da avaliação pré-participação é diagnosticar precocemente alterações do organismo que possam trazer riscos maiores, como a doença arterial coronariana — mais prevalente na população acima dos 35 anos.
Este artigo explica como essa avaliação é estruturada, quais exames são necessários de acordo com o perfil do corredor e quais condições cardíacas precisam ser identificadas antes de qualquer linha de largada.

Por que a maratona exige atenção cardiológica especial
A maratona não é apenas uma corrida longa. Do ponto de vista cardiovascular, ela representa horas de esforço aeróbico de alta intensidade sustentada, com sobrecarga significativa sobre o coração, as artérias coronárias e o sistema elétrico cardíaco.
Durante uma maratona, o coração de um corredor treinado pode bater entre 140 e 170 vezes por minuto por quatro a seis horas consecutivas. Esse esforço prolongado expõe o miocárdio a uma demanda excepcional de oxigênio e pode desmascarar condições cardíacas que permaneceram silenciosas na vida cotidiana.
As condições que mais preocupam nos corredores são diferentes de acordo com a faixa etária. Em atletas jovens, a maioria das mortes cardíacas súbitas ocorre em pessoas que não apresentam anomalias detectadas na estrutura cardíaca. Quando existe uma anomalia estrutural, a mais comum é o espessamento anormal do músculo cardíaco — a cardiomiopatia hipertrófica. Já em atletas mais velhos — especialmente acima dos 35 a 40 anos —, a principal causa passa a ser a doença aterosclerótica coronariana, com placas que podem se tornar instáveis durante o esforço físico intenso.
Isso explica por que a avaliação pré-participação é estruturada de forma diferente para corredores jovens e para corredores mais velhos: os riscos subjacentes são distintos, e os exames precisam ser direcionados para identificar o que realmente ameaça cada perfil.
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A avaliação pré-participação: como ela é estruturada
A avaliação pré-participação esportiva é composta por três componentes fundamentais, conforme estabelecido pela Atualização da Diretriz em Cardiologia do Esporte e do Exercício da SBC e SBMEE 2019:
Anamnese clínica e esportiva
O primeiro passo é a conversa clínica detalhada. O cardiologista investiga o histórico pessoal, familiar e esportivo do corredor, além de analisar queixas como fadiga excessiva, palpitações ou dor no peito. Nenhum exame substitui uma anamnese bem feita — ela é o guia que orienta quais exames devem ser solicitados e qual o nível de investigação necessário.
Os pontos essenciais da anamnese incluem:
- Sintomas durante ou após o exercício: palpitações, falta de ar desproporcional ao esforço, dor no peito, tontura ou síncope
- Histórico familiar de morte súbita antes dos 50 anos, cardiomiopatias, arritmias hereditárias ou doença coronariana precoce
- Presença de fatores de risco cardiovascular: hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo, obesidade
- Histórico de doenças cardíacas prévias, cirurgias ou procedimentos
- Uso de medicamentos e suplementos, incluindo estimulantes e substâncias para performance
- Volume e intensidade atual de treinamento, e a meta esportiva pretendida
Exame físico
O exame clínico completo inclui aferição da pressão arterial em ambos os braços, ausculta cardíaca e pulmonar, avaliação de pulsos periféricos, e detecção de sopros que possam indicar valvopatias ou obstrução na via de saída do ventrículo esquerdo — um dos sinais da cardiomiopatia hipertrófica.
Exames complementares
A escolha dos exames complementares é estratificada de acordo com a idade, o nível de prática esportiva e a presença de fatores de risco.
Quais exames são necessários — e para quem
A diretriz SBC/SBMEE estabelece critérios claros de indicação. Esportistas de até 35 anos de idade, sem comorbidades, devem fazer consulta com cardiologista e ECG. Esportistas acima de 35 anos devem fazer consulta, ECG, análises sanguíneas e teste ergométrico. Caso seja identificada alguma comorbidade, aprofunda-se a investigação. Atletas de elite devem sempre ter uma avaliação pré-participação completa, com história, exame físico, laboratório, ecocardiograma, teste ergométrico ou cardiopulmonar.
Para corredores que pretendem correr uma maratona — independentemente de serem amadores ou competitivos —, a intensidade do esforço justifica uma avaliação mais completa do que a de um iniciante que quer caminhar três vezes por semana.
A tabela abaixo resume os exames recomendados por perfil:
| Perfil do corredor | Exames recomendados |
| Jovem (abaixo de 35 anos) sem fatores de risco | ECG de repouso, hemograma, glicemia, lipidograma, função renal, urina tipo I |
| Acima de 35 anos ou com fatores de risco | Todos acima + teste ergométrico + ecocardiograma |
| Atletas amadores(qualquer idade) | Todos acima + considerar Holter 24h, ergoespirometria, e demais exames pertinentes |
| Atleta de elite ou com achados suspeitos | Avaliação completa incluindo ecocardiograma com strain, TCPE e ressonância magnética cardíaca se indicada |

Os principais exames explicados
Eletrocardiograma (ECG) de repouso
O ECG é o exame de entrada da avaliação cardiológica em corredores. O ECG de 12 derivações em repouso é recomendado na avaliação pré-participação de esportistas e atletas pela Diretriz Brasileira de Cardiologia do Esporte, com o objetivo de identificar possíveis alterações que se correlacionem a risco de morte súbita. Ele pode identificar arritmias, bloqueios de condução, síndrome de Wolff-Parkinson-White, prolongamento do intervalo QT e sinais sugestivos de cardiomiopatia hipertrófica. Um ponto de atenção importante: o ECG do atleta apresenta diversas alterações fisiológicas benignas decorrentes das adaptações ao treinamento — e a interpretação deve ser feita por profissional familiarizado com essas particularidades, para não confundir o normal com o patológico.
Teste ergométrico (TE)
O teste ergométrico avalia o comportamento do coração durante o esforço físico progressivo. O paciente caminha ou corre em uma esteira enquanto o médico monitora a atividade elétrica do coração, a frequência cardíaca, a pressão arterial e a presença de sintomas. O teste ergométrico é fundamental para observar como o coração reage ao esforço crescente e pode indicar alterações que não aparecem em repouso — especialmente isquemia miocárdica e arritmias induzidas pelo esforço. Para a diretriz, o teste ergométrico é classe IIa para esportistas amadores antes de iniciar atividade de alta intensidade.
Ecocardiograma
O ecocardiograma permite visualizar a anatomia e o funcionamento do coração em tempo real. Com ele, é possível identificar hipertrofia ventricular, alterações nas válvulas, falhas no bombeamento do sangue e sinais de cardiomiopatia hipertrófica. O ecocardiograma com análise de strain — tecnologia que avalia a deformação do músculo cardíaco com alta precisão — detecta alterações sutis no desempenho cardíaco, mesmo antes do surgimento de sintomas.
Holter de 24 horas
O Holter monitora continuamente o ritmo cardíaco por 24 horas, permitindo capturar arritmias que não aparecem no ECG de repouso. Em corredores com relatos de palpitações, episódios de taquicardia durante o treino ou história familiar de arritmias, o Holter pode ser um exame decisivo.
Teste cardiopulmonar de exercício (TCPE / Ergoespirometria)
No contexto clínico da avaliação pré-participação de atletas e indivíduos que pretendem iniciar exercícios aeróbicos intensos, o teste cardiopulmonar de exercício apresenta muitas vantagens sobre o teste de exercício convencional. Ele mede o consumo máximo de oxigênio (VO₂máx) e os limiares ventilatórios, permitindo não apenas avaliar riscos, mas também definir com precisão as zonas de treinamento ideais — algo particularmente valioso para quem está periodizando a preparação para uma maratona.
Exames laboratoriais
O painel laboratorial inclui hemograma completo (rastreia anemia, que pode limitar a performance e sobrecarregar o coração), glicemia e hemoglobina glicada (rastreio de diabetes), lipidograma completo, função renal (creatinina, ureia) e marcadores hepáticos. Em corredores de longa distância, a ferritina e o ferro sérico merecem atenção especial, pois a deficiência de ferro — mesmo sem anemia instalada — pode impactar significativamente a performance e a recuperação.
O que o cardiologista procura: condições que precisam ser identificadas
A avaliação pré-participação tem como alvo principal identificar condições cardíacas que aumentam o risco de eventos graves durante o esforço intenso. As principais são:
Cardiomiopatia hipertrófica (CMH)
A cardiomiopatia hipertrófica é uma patologia genética que se caracteriza pela hipertrofia do ventrículo esquerdo. As paredes espessas e rígidas dos ventrículos não relaxam de maneira adequada, e essa dificuldade se torna mais grave quando o coração bate aceleradamente — como durante atividades físicas. É a causa mais comum de morte súbita em jovens atletas. A CMH atinge aproximadamente 1 indivíduo a cada 500 pessoas e pode ser completamente silenciosa até um evento grave.
Indivíduos com fenótipo positivo — ou seja, que já apresentam alterações anatômicas do coração — não devem participar da maioria das atividades físicas competitivas.
Doença arterial coronariana
Em corredores acima dos 35 a 40 anos, a doença aterosclerótica coronariana é a principal preocupação. Placas que estreitam as artérias coronárias podem ser assintomáticas em repouso, mas durante o esforço intenso podem provocar isquemia ou se romper, desencadeando um infarto. É por isso que o teste ergométrico é especialmente importante nessa faixa etária.
Canalopatias e síndromes arrítmicas hereditárias
Síndromes como o QT longo congênito, a síndrome de Brugada e a taquicardia ventricular polimórfica catecolaminérgica (TVPC) são condições hereditárias que aumentam o risco de arritmias malignas durante o esforço. O ECG e a história familiar são as principais ferramentas para suspeitar dessas condições.
Anomalias congênitas das coronárias
Algumas pessoas nascem com trajetos anômalos das artérias coronárias que só se tornam problemáticos durante esforços de alta intensidade — quando o vaso pode ser comprimido, reduzindo o fluxo de sangue para o coração em momentos de maior demanda.
Miocardite
A inflamação do músculo cardíaco — muitas vezes decorrente de infecções virais — pode provocar arritmias graves durante o exercício. Corredores que passaram por infecções recentes, especialmente virais, devem aguardar a recuperação completa e reavaliação antes de retomar treinos intensos.

Com que frequência repetir a avaliação
A avaliação cardiológica para corredores não deve ser feita apenas uma vez. O ideal é repetir os exames periodicamente, de acordo com a intensidade e a frequência dos treinos. Para atletas de alta performance, recomenda-se realizar a avaliação a cada 12 meses. Para corredores amadores, a cada 18 a 24 meses, ou sempre que houver mudança significativa no volume de treinos.
Momentos que justificam nova avaliação mesmo antes do prazo habitual:
- Mudança significativa no volume ou intensidade dos treinos — como passar de corridas de 5 km para preparação de maratona
- Surgimento de sintomas novos: palpitações, falta de ar, dor no peito ou tontura durante o treino
- Após qualquer infecção grave, especialmente viral — com risco de miocardite
- Após os 40 anos, mesmo sem sintomas, com reavaliação do teste ergométrico
- Após evento cardiovascular em familiar próximo
O atestado de aptidão: o documento final da avaliação
Ao final da avaliação, o cardiologista emite um atestado de aptidão ou liberatório para a prática esportiva. Neste atestado, consta o tipo de esporte para o qual a pessoa está apta, de acordo com uma classificação que leva em conta a exigência estática e dinâmica da modalidade. Para a maratona — modalidade de alta demanda dinâmica —, esse documento é indispensável e deve ser atualizado periodicamente.
Alguns eventos de corrida no Brasil já exigem este atestado como condição de inscrição — uma medida que reflete a crescente consciência sobre a importância da avaliação cardiovascular antes de provas de endurance.
Conclusão
Correr uma maratona é uma conquista extraordinária — e o preparo para ela começa muito antes do treino longo. Começa com uma avaliação cardiológica bem feita, conduzida por um profissional que conhece as particularidades do coração do atleta e sabe interpretar os achados dentro do contexto da prática esportiva.
A avaliação pré-participação é capaz de identificar condições silenciosas que representam risco real durante o esforço intenso — e de tranquilizar corredores saudáveis, que podem treinar com segurança e confiança sabendo que seu coração foi avaliado. Os exames variam conforme a idade e o perfil de risco, mas a consulta com o cardiologista do esporte é o ponto de partida universal.
Se você está planejando correr uma maratona, marque sua consulta cardiológica antes de começar o plano de treino. Seu coração merece esse cuidado — e sua corrida também.
FAQ — Perguntas frequentes sobre avaliação cardiológica para maratona
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Todo corredor precisa de avaliação cardiológica antes da maratona?
Sim. A avaliação pré-participação é recomendada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e pela Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) para qualquer pessoa que pretenda iniciar ou intensificar a prática de atividade física. Para corredores que se preparam para uma maratona — pela alta demanda cardiovascular da modalidade —, essa avaliação é especialmente importante.
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Quais são os exames obrigatórios antes de correr uma maratona?
Para corredores acima de 35 anos ou com fatores de risco cardiovascular, os exames essenciais incluem ECG de repouso, teste ergométrico, ecocardiograma e painel laboratorial completo (hemograma, lipidograma, glicemia, função renal). Para corredores jovens sem fatores de risco, o ECG e os exames laboratoriais básicos são o ponto de partida. Em casos selecionados, o Holter e a ergoespirometria podem ser indicados.
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O que é a cardiomiopatia hipertrófica e por que é importante rastreá-la antes de correr?
A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença genética que causa espessamento do músculo do ventrículo esquerdo. É a principal causa de morte súbita em atletas jovens e pode ser completamente assintomática. O ECG e o ecocardiograma são os principais exames para identificá-la na avaliação pré-participação.
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Corredor acima de 40 anos precisa de exames diferentes?
Sim. A partir dos 35–40 anos, a principal causa de morte súbita durante o exercício passa a ser a doença arterial coronariana, e não mais as cardiopatias estruturais congênitas. Por isso, o teste ergométrico se torna especialmente importante nessa faixa etária, pois avalia o comportamento do coração durante o esforço e pode detectar isquemia que permanece silenciosa em repouso.
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Com que frequência deve ser feita a avaliação cardiológica em corredores?
Para os atletas amadores de maneira geral e quem se exercita regularmente, a avaliação deve ser anual. A avaliação deve ser antecipada sempre que surgirem novos sintomas, após infecções graves, ou quando houver mudança significativa no volume e intensidade dos treinos.





