A obesidade já não pode ser vista apenas como uma questão estética ou de estilo de vida. É uma doença crônica complexa, com bases biológicas e genéticas bem estabelecidas, e um dos fatores de risco mais impactantes para a saúde cardiovascular. No Brasil, os números são alarmantes: dados do VIGITEL 2025, divulgados pelo Ministério da Saúde em janeiro de 2026, mostram que a obesidade cresceu 118% entre 2006 e 2024 entre adultos brasileiros. No mesmo período, o diabetes aumentou 135% e a hipertensão, 31% — doenças que caminham lado a lado com a obesidade e multiplicam o risco cardíaco.
Dados de 2025 sugerem que 68% dos adultos brasileiros possuem IMC ≥ 25 kg/m², e que 31% dessa população está vivendo com obesidade. Em 2021, houve 60.913 mortes prematuras associadas ao IMC elevado no país.
Em resposta a esse cenário, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), em conjunto com ABESO, SBD, SBEM e ABS, publicou em 2025 a Diretriz Brasileira Baseada em Evidências para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares e Complicações Associadas à Obesidade — um documento que redefine a forma como a obesidade deve ser avaliada e tratada do ponto de vista cardiovascular, com novas ferramentas de estratificação de risco e novas recomendações terapêuticas.
Este artigo apresenta, em linguagem acessível, os principais pontos dessa diretriz e o que eles significam na prática para quem convive com obesidade ou sobrepeso.
Obesidade é doença — e impacta diretamente o coração
O primeiro ponto que a diretriz reforça com clareza é que a obesidade não é uma consequência de falta de força de vontade — é uma doença crônica, com fisiopatologia complexa e consequências sistêmicas graves.
A obesidade é um dos principais determinantes da doença cardiovascular. Estudos epidemiológicos prospectivos demonstram que a obesidade está associada a um risco elevado de eventos de doença arterial coronariana e de mortalidade cardiovascular.
Esse impacto cardiovascular ocorre por dois mecanismos principais:
Mecanismo indireto: a obesidade promove e agrava os fatores de risco cardiovasculares tradicionais. Sua influência ocorre de forma indireta, através do aumento de fatores de risco cardiovascular tradicionais como diabetes tipo 2, dislipidemia e hipertensão arterial sistêmica. Cada um desses fatores, isoladamente, já aumenta o risco de infarto e AVC. Quando combinados — o que é a regra, não a exceção, em pacientes com obesidade — o risco se multiplica de forma sinérgica.
Mecanismo direto: além dos fatores de risco tradicionais, a obesidade age diretamente sobre o coração. Há também efeito direto do estado inflamatório induzido pela adiposidade na estrutura e função cardíacas. A gordura visceral, em particular, libera citocinas inflamatórias e ácidos graxos livres que afetam o funcionamento do músculo cardíaco, favorecem a progressão da aterosclerose e aumentam a rigidez das artérias.
O impacto cardiovascular é central: estudos epidemiológicos e genéticos mostram forte associação entre obesidade e maior risco de doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca e morte por causa cardiovascular.
Como avaliar a obesidade além do IMC
Por décadas, o Índice de Massa Corporal (IMC) foi o principal — e muitas vezes único — parâmetro utilizado para classificar a obesidade. A nova diretriz SBC 2025 introduz uma mudança importante nessa abordagem.
A diretriz destaca que devemos ir muito além do IMC para diagnóstico e classificação da obesidade. Destaque para a relação cintura/quadril e cintura/estatura, que evidenciam o possível aumento de gordura visceral, que é forte preditora para morbidade e mortalidade em qualquer categoria de IMC.
Isso significa que duas pessoas com o mesmo IMC podem ter riscos cardiovasculares completamente diferentes, dependendo de onde a gordura está distribuída. Uma pessoa com IMC de 28 kg/m² mas com grande acúmulo de gordura visceral pode ter risco muito maior do que outra com o mesmo IMC e distribuição periférica da gordura.
Os parâmetros de avaliação recomendados pela diretriz incluem:
- IMC (Índice de Massa Corporal) — continua útil como triagem inicial: abaixo de 25 kg/m² (peso normal), entre 25 e 29,9 kg/m² (sobrepeso), entre 30 e 34,9 kg/m² (obesidade grau 1), entre 35 e 39,9 kg/m² (grau 2) e acima de 40 kg/m² (grau 3 ou obesidade severa)
- Circunferência abdominal — marcador central da gordura visceral; valores acima de 102 cm em homens e 88 cm em mulheres indicam alto risco
- Relação cintura/estatura — valores acima de 0,5 indicam risco metabólico elevado
- Relação cintura/quadril — complementa a avaliação da distribuição de gordura corporal
A adoção dessas medidas antropométricas complementares ao IMC permite identificar pacientes com “obesidade de peso normal” — aqueles com IMC dentro dos limites mas com significativo acúmulo de gordura visceral e risco cardiovascular aumentado.

O novo modelo de estratificação de risco cardiovascular na obesidade
Uma das mudanças mais relevantes da diretriz SBC 2025 é a introdução de um modelo estruturado de estratificação de risco cardiovascular específico para pessoas com sobrepeso ou obesidade.
É recomendado avaliar e categorizar o risco em relação à Doença Aterosclerótica Cardiovascular e à Insuficiência Cardíaca de todos os indivíduos adultos acima de 18 anos com sobrepeso ou obesidade, com o objetivo de orientar o tratamento da obesidade.
A ferramenta escolhida para essa estratificação é o escore PREVENT — o mesmo adotado pela diretriz de hipertensão e de dislipidemias da SBC 2025. A diretriz recomenda o escore de risco PREVENT no modo que inclui o valor da HbA1c, utilizando o risco de Doença Aterosclerótica Cardiovascular total e o risco de Insuficiência Cardíaca em 10 anos.
A diretriz prevê que pacientes adultos com idade entre 30 e 79 anos com sobrepeso ou obesidade, sem doença cardiovascular prévia, devem ter sua condição cardiovascular avaliada por meio do escore PREVENT — ferramenta que calcula a probabilidade de infarto, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca ao longo dos dez anos seguintes.
A diretriz ainda define critérios para reclassificação de risco — situações em que o paciente deve ser reavaliado para uma categoria de risco mais alta. Aqueles com história familiar de doença arterial coronariana precoce devem realizar o escore de cálcio coronário. Se o resultado estiver acima de 100 Ag (sem diabetes) ou acima de 10 Ag (com diabetes), o paciente é reclassificado para alto risco.
Essa estratificação não é apenas um exercício teórico: ela define diretamente quais pacientes têm indicação de tratamento farmacológico para a obesidade além das mudanças de estilo de vida.
Obesidade e insuficiência cardíaca: uma conexão subestimada
A relação entre obesidade e infarto é amplamente conhecida. Menos discutida — mas igualmente importante — é a conexão entre obesidade e insuficiência cardíaca, especialmente a insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp).
A gordura visceral provoca alterações diretas na estrutura do coração: sobrecarga de volume, aumento da pressão de enchimento, hipertrofia ventricular e disfunção diastólica. Com o tempo, essas alterações podem progredir para insuficiência cardíaca mesmo na ausência de infarto prévio ou doença arterial coronariana estabelecida.
A perda de peso induzida pela cirurgia bariátrica em pessoas com obesidade sem insuficiência cardíaca estabelecida, fibrilação atrial ou doença arterial coronariana conhecida, foi associada com redução da massa do ventrículo esquerdo, melhora na função diastólica do ventrículo esquerdo e redução do tamanho do átrio esquerdo.
Esse dado é clinicamente significativo: a perda de peso não apenas reduz os fatores de risco cardiovascular — ela promove remodelamento cardíaco favorável, com efeitos mensuráveis na estrutura e na função do coração.
Como a obesidade deve ser tratada: o que a diretriz recomenda
O tratamento da obesidade, segundo a diretriz SBC 2025, deve ser estruturado em etapas e individualizado de acordo com o risco cardiovascular do paciente — não apenas de acordo com o grau de obesidade.
Mudanças no estilo de vida: o alicerce inegociável
Independentemente de qualquer intervenção farmacológica ou cirúrgica, as mudanças no estilo de vida são o pilar fundamental e insubstituível do tratamento. O aconselhamento nutricional deverá focar na redução do tamanho das porções, no aumento da ingestão de frutas, verduras e hortaliças, e na redução do consumo de álcool e alimentos ultraprocessados. Além disso, deve visar um déficit energético inicial de 500 a 750 kcal por dia.
A atividade física regular é igualmente essencial — tanto pelo seu impacto sobre o peso quanto pelos benefícios cardiovasculares independentes da perda de peso.
Tratamento farmacológico: os novos medicamentos que mudaram o cenário
A maior revolução no tratamento da obesidade dos últimos anos veio dos agonistas do receptor de GLP-1 e do coagonista GLP-1/GIP — medicamentos que originalmente foram desenvolvidos para o diabetes, mas que demonstraram eficácia extraordinária na perda de peso e, mais recentemente, na proteção cardiovascular.
É recomendado o tratamento com um agonista do receptor GLP-1 ou coagonista dos receptores GLP-1/GIP para indivíduos adultos com sobrepeso ou obesidade e risco de Doença Aterosclerótica Cardiovascular moderado ou alto, para redução de peso e fatores de risco cardiovascular.
O principal estudo que estabeleceu esse benefício foi o SELECT Trial, que avaliou a semaglutida em pessoas com obesidade e doença cardiovascular estabelecida. O estudo SELECT foi o primeiro a mostrar redução de risco de morte em pessoas com excesso de peso, mas sem diabetes. No estudo, que demonstrou a superioridade da semaglutida 2,4 mg em relação ao placebo na redução de eventos cardiovasculares em pessoas com obesidade e doença cardiovascular estabelecida, a redução de peso associada ao benefício foi de apenas 9%.
Isso sugere que parte significativa dos benefícios cardiovasculares desses medicamentos é independente da perda de peso — atuando diretamente sobre a inflamação, a função endotelial e outros mecanismos cardioprotetores.
A tirzepatida, o primeiro agente com ação dupla nos receptores de GLP-1 e GIP, mostrou resultados ainda mais expressivos. As diretrizes destacam o potencial da tirzepatida, que tem mostrado eficácia superior à dos agonistas simples do GLP-1 em ensaios clínicos de fase 3, como o SURMOUNT-1 e o SURPASS-CVOT. Esses estudos demonstraram reduções médias de peso superiores a 20% e melhoras expressivas no controle glicêmico e nos marcadores cardiometabólicos, incluindo pressão arterial e perfil lipídico.
A diretriz SBC 2025 também faz recomendações específicas para subgrupos clínicos importantes:
É recomendado o uso da semaglutida subcutânea (2,4 mg/semana) ou da tirzepatida (5–15 mg/semana) em pacientes com obesidade e insuficiência cardíaca estabelecida com fração de ejeção preservada, para redução de peso, melhora de qualidade de vida e de sintomas relacionados à insuficiência cardíaca.
Cirurgia bariátrica: quando e para quem
A cirurgia bariátrica permanece uma opção eficaz e com benefício cardiovascular comprovado para casos selecionados. A cirurgia bariátrica mantém seu papel na obesidade grave (IMC acima de 40 kg/m²), especialmente na presença de risco cardiovascular elevado, mas o documento enfatiza a necessidade de estratificação criteriosa do risco para sua indicação.
Os dados de longo prazo são robustos. O Swedish Obese Subjects (SOS) study, um dos maiores estudos de coorte sobre cirurgia bariátrica, demonstrou redução de eventos cardiovasculares e de mortalidade em populações com obesidade submetidas ao procedimento.
A diretriz ressalta, porém, que com a chegada de medicamentos de alta eficácia — como semaglutida e tirzepatida — o perfil do candidato cirúrgico tende a mudar, sendo cada vez mais indicada para pacientes verdadeiramente refratários ao tratamento clínico otimizado.
A tabela do risco: quando tratar e com o quê
A diretriz SBC 2025 organiza o tratamento de acordo com o risco cardiovascular estimado pelo escore PREVENT:
| Risco cardiovascular | Tratamento recomendado |
| Baixo risco | Mudanças de estilo de vida; farmacoterapia pode ser considerada se necessário |
| Risco moderado | Mudanças de estilo de vida + considerar agonista GLP-1 ou GLP-1/GIP |
| Alto risco | Mudanças de estilo de vida + agonista GLP-1 ou GLP-1/GIP recomendados |
| Doença cardiovascular estabelecida | Semaglutida ou tirzepatida recomendadas |
| Obesidade grau 3 com alto risco | Cirurgia bariátrica pode ser indicada |
Fonte: Diretriz Brasileira SBC/ABESO/SBD/SBEM/ABS 2025.

O paradoxo da obesidade: um conceito importante
Um fenômeno observado em estudos populacionais merece menção: o chamado paradoxo da obesidade, em que pacientes com leve sobrepeso — IMC entre 25 e 30 kg/m² — apresentam, em alguns estudos, menor mortalidade do que pacientes com peso normal, especialmente após eventos cardiovasculares.
Embora o paradoxo da obesidade tenha sido observado para mortalidade por todas as causas, o grupo com sobrepeso foi associado à menor mortalidade cardiovascular, sem diferença significativa entre outras categorias de IMC.
A interpretação mais aceita não é que o sobrepeso “protege” o coração — mas que essa associação reflete limitações metodológicas dos estudos (como o fato de pacientes com doenças graves cronicamente perderem peso, reduzindo artificialmente o peso médio dos grupos de maior mortalidade). A diretriz não utiliza esse achado para recomendar o sobrepeso como alvo terapêutico: a recomendação permanece a de manutenção do peso saudável com redução da gordura visceral.
Conclusão
A obesidade é hoje um dos maiores desafios de saúde pública do Brasil — e um dos fatores de risco cardiovascular mais prevalentes e menos controlados. A nova Diretriz Brasileira de Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares 2025, fruto da parceria entre cinco sociedades médicas liderada pela SBC, representa um avanço significativo na forma como essa condição deve ser abordada.
O diagnóstico vai além do IMC. O risco cardiovascular deve ser estratificado de forma sistemática. E o tratamento — baseado em mudanças de estilo de vida, farmacoterapia moderna e, quando indicada, cirurgia bariátrica — deve ser individualizado de acordo com o risco de cada paciente.
Se você tem sobrepeso ou obesidade e ainda não avaliou seu risco cardiovascular, o momento é agora. Converse com um cardiologista.
FAQ — Perguntas frequentes sobre obesidade e risco cardiovascular
Obesidade aumenta o risco de infarto?
Sim. A obesidade é um fator de risco independente para doença arterial coronariana e mortalidade cardiovascular. Ela age tanto de forma indireta — favorecendo hipertensão, diabetes e dislipidemia — quanto de forma direta, por meio do estado inflamatório crônico induzido pela gordura visceral, que afeta a estrutura e a função do coração.
Qual é o IMC considerado obesidade?
IMC entre 25 e 29,9 kg/m² é classificado como sobrepeso. Obesidade é definida por IMC acima de 30 kg/m², dividida em graus: grau 1 (30–34,9), grau 2 (35–39,9) e grau 3 ou severa (acima de 40). Mas a diretriz SBC 2025 reforça que o IMC isolado é insuficiente — circunferência abdominal, relação cintura/estatura e relação cintura/quadril devem complementar a avaliação.
Semaglutida e tirzepatida são indicadas para todos os pacientes com obesidade?
Não. A indicação depende do risco cardiovascular do paciente. A diretriz SBC 2025 recomenda esses medicamentos especialmente para adultos com sobrepeso ou obesidade e risco cardiovascular moderado a alto — e os considera prioritários em pacientes com doença cardiovascular estabelecida ou insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. A decisão é sempre individualizada pelo médico responsável.
Perda de peso melhora a função cardíaca?
Sim. Estudos demonstram que a perda de peso — especialmente com redução da gordura visceral — está associada à redução da massa do ventrículo esquerdo, melhora da função diastólica e redução do átrio esquerdo. Esses efeitos representam um remodelamento cardíaco favorável, com impacto direto na prevenção e no controle da insuficiência cardíaca.
Quando a cirurgia bariátrica é indicada?
A cirurgia bariátrica é indicada principalmente para pacientes com IMC acima de 40 kg/m², ou acima de 35 kg/m² com comorbidades associadas, que não obtiveram resultado satisfatório com tratamento clínico otimizado por pelo menos dois anos. A diretriz SBC 2025 reforça a necessidade de estratificação criteriosa do risco cardiovascular antes da indicação cirúrgica.





